Na quarta aula vimos um pouco mais sobre como veio se manifestar o Romantismo no Brasil. Voltei a falar do caráter empenhado da literatura brasileira da época do Romantismo. Com relação ao nacionalismo, vimos como este se manifestou através da leitura que fizemos do aparentemente singelo poema Canção do Exíllio, de Gonçalves Dias. Nesta leitura, pudemos observar as estratégias compositivas utilizadas pelo poeta para falar da terra pátria. Vimos ainda como se manifestou uma das tendências mais acentuadas do Romantismo brasileiro: o Indianismo, através da leitura de alguns trechos do I-Juca Pirama, do mesmo poeta.
Li com vocês o trecho do rito sacrificial - o antropofagismo - e mencionei o alcance simbólico dessa manifestação - que iremos encontrar mais tarde, explorada como temática, no modernismo brasileiro, cuja difusão se dará por Oswald de Andrade em seu famoso Manifesto Antropofágico. Oswald aplicava simbolicamente a idéia desse rito à sua concepção da cultura brasileira.
Em seguida mencionei mais uma das vertentes que encontraremos no Romantismo brasileiro: o Condoreirismo, que é a fase, digamos, mais engajada do Romantismo. Entre seus principais representantes encontraremos o poeta Castro Alves, que foi um dos maiores defensores da causa abolicionista no Brasil. Em seus poemas, Navio Negreiro e Vozes D'África, tratará das atrocidades cometidas contra os negros no Brasil. Se tiverem curiosidade, Caetano Veloso fez uma bela versão musicada do poema Navio Negreiro, que vocês podem encontrar no disco Livro. Aliás Caetano, em suas composições, toma emprestadas muitas referências da literatura brasileira - Castro Alves, Gregório de Matos, Oswald de Andrade, entre outros.
Depois disso entramos na discussão sobre as Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida. Vimos então a diversidade de temas e tipos sociais urbanos que aparecem no romance. Como mostrei a vocês, o livro é recheado de referências à cultura popular da época: a música, as procissões, o sincretismo religioso. Quanto aos tipos que surgem no romance vimos como se compunha o grosso da camada urbana do Rio de Janeiro de então.
É de se observar que, contrariamente a muitas narrativas compostas no período, Manuel Antonio propõe-se a dar visibilidade a uma classe não muito tematizada pela literatura da época. Essa classe urbana, que se espremia entre os grandes proprietários - que constituiam a burguesia carioca da época - e os escravos, e que viviam numa espécie de situação flutuante. Não possuíam ofício regular, viviam de bicos ou de favores, que como disse a vocês era uma espécie de regime que vigorava na época. Neste caso a figura do agregado se tornará algo bastante comum para o período. Na impossibilidade de ganhar para o sustento através do próprio trabalho, muitos se encaixavam em outras famílias dentro dessa condição, como é o caso do Leonardinho das Memórias. Veremos que essa figura será peça recorrente em várias outras narrativas do século XIX - Machado de Assis recorrerá muito a este tipo.
Vimos ainda a riqueza das descrições minuciosas feitas pelo autor. Como exemplo li com vocês o trecho referente às baianas na procissão - que muitas vezes chamavam mais atenção do que os próprios santos. Essa minuciosidade descritiva presente na narrativa de Manuel Antonio fez com que muitos intérpretes da obra a considerassem como uma éspecie de precurssora do Realismo. Essa leitura é possível, no entanto, e apesar das críticas de Manuel Antonio ao Romantismo, vimos que existem muitos traços na obra que nos permitem considerá-la como parte do Romantismo.
Voltaremos a falar da Memórias, realizando uma leitura mais analítica da obra.
Até lá.
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